segunda-feira, 11 de abril de 2016

A causa do preconceito segundo Sartre.


Sartre tinha parte de seu sangue dos judeus, por parte de mãe, e talvez por isso tenha se interessado em falar sobre a questão judaica.
A guerra e o holocausto com certeza também deram a ele a motivação para falar do assunto.
A filosofia de Sartre era existencialista, mas, no caso da sua opinião sobre a questão judaica, na minha opinião, esta mais para uma "crítica social" do que para existencialismo.
Em todo caso, as palavras de Sartre são importantes e no meu entender ele vai no cerne da questão e identifica corretamente o que move o "anti" semita no caso.
Vou colocar a seguir trechos escritos por Sartre, nada melhor do que a própria palavra do autor para explicar o que ele pensa.
Ao fim dos textos vou expressar rapidamente a minha opinião.

***

“Fica evidente que nenhum fator externo pode levar o anti-semita ao anti-semitismo.
O anti-semitismo é uma escolha livre e total de si mesmo, é uma atitude global que alguém adota não aomente para com os judeus, mas para com todos os seres humanos, com a história e a sociedade, é tanto uma paixão quanto uma visão de mundo..."

“O homem racional procura angustiosamente a verdade, sabe que seus raciocínios são apenas prováveis, de que outras considerações vão colocá-los em dúvida; nunca sabe bem para onde está indo; é “aberto”, pode até ser tomado por hesitante.
Mas existem pessoas que são atraídas pela constância das pedras.
Querem ser maciças e impenetráveis, não querem mudar – pois aonde a mudança as levaria?
Trata-se de um medo primordial de si mesmos e um medo da verdade.
E o que as assusta não é o teor da verdade, do qual nem desconfiam, mas sim a forma do verdadeiro, esse objeto de contornos indefinidos.
É como se a própria existência dessas pessoas estivesse permanentemente em suspenso.
Mas, elas querem opiniões adquiridas, querem opiniões inatas, como têm medo de raciocinar, querem um modo de vida no qual o raciocínio e a indagação tenham papel apenas subalterno, no qual só se busque o que já se descobriu, no qual o que já é nunca se transforme.
Para isso, resta apenas a paixão.
Apenas um forte preconceito pode produzir uma certeza fulgurante, apenas ele pode subjulgar o raciocínio, apenas ele pode permanecer impermeável à experiência e durar toda uma vida.
O anti-semita escolheu o ódio porque o ódio é uma fé; antes de mais nada, preferiu desvalorizar as palavras e as razões.
Agora se sente à vontade, e as discussões sobre direitos dos judeus lhe parecem fúteis e levianas – pois logo de início ele já se colocou em outro terreno.
Se, por cortesia, consente em defender por um instante o seu ponto de vista, ele se presta a fazê-lo, mas na realidade não o faz e simplismente tenta projetar no plano do discurso a sua certeza intuitiva.”

“O anti-semitismo não existe apenas pelo prazer de odiar, acarreta também prazeres positivos: tratando o judeu como ser inferior e pernicioso, está também afirmando que pertençe a uma elite.
E esta elite é muito diferentemente das elites modernas que se baseiam no mérito e no trabalho, assemelha-se em tudo a uma aristocracia de sangue.
Não preciso fazer nada para merecer minha superioridade, e não há como perdê-la.
É dada para sempre – é uma coisa.”

“As associações anti-semitas não querem criar nada, recusam-se a assumir responsabilidades, tem horror a se apresentar como um segmento da opinião pública francesa, pois nesse caso precisariam estabelecer um programa e buscar meios de ação legal.
Preferem se apresentar como a expressão absolutamente pura e absolutamente passiva do sentimento do país real em sua indivisibilidade”
“Agora estamos em condições de entender o anti-semita.
É um homem que tem medo.
Certamente não dos judeus; mas de si próprio, de sua consciência, de sua liberdade, de seus instintos, de suas responsabilidades, da solidão, da mudança, da sociedade e do mundo – de tudo exceto dos judeus.
É um covarde que não quer confessar sua covardia, um assassino que reprime suas tendências homicidas sem conseguir refreá-las e que, no entanto, só se atreve a matar em efígie ou no anonimato da turba, um descontente que não ousa revoltar-se por medo das conseqüências da revolta.
Aderindo ao anti-semitismo, não adota apenas uma opinião, mas escolhe também a pessoa que quer ser.
Escolhe a constância e a impermeabilidade da pedra, a irresponsabilidade total do guerreiro que obedece a seus chefes – e ele não tem chefe.
Escolhe não adquirir nada, não merecer nada, que tudo lhe seja dado de nascença – e ele não é nobre.
Finalmente, escolhe que o Bem já esteja pronto, fora de questão, ao abrigo de qualquer perigo; não se atreve a encará-lo por medo de ser levado a contestá-lo e a procurar outro.
Nisso, o judeu não é mais do que um pretexto: em outro lugar, o negro, o amarelo servirão.
A existência do judeu simplesmente permite ao anti-semita sufocar suas angústias no nascedouro, persuadindo-se de que seu lugar no mundo já estava determinado e o esperava e de que, pela tradição, ele tem o direito de ocupá-lo.
O anti-semitismo é, em resumo, o medo em face da condição humana.
O anti-semita é o homem que quer ser rocha implacável, torrente furiosa, raio destruidor – tudo menos homem.”

“O (judeu é) homem social por excelência, já que seu tormento é social.
O que fez dele judeu foi a sociedade, e não a vontade divina, foi ela que deu origem ao problema judaico, e, como o judeu se vê obrigado a definir-se totalmente nas perspectivas desse problema, é no social que ele define sua própria existência.
Seu projeto constitutivo de integrar-se na comunidade nacional é social, social é o esforço que faz para pensar-se a si mesmo, ou seja, para situar-se entre outros homens, sociais são suas alegrias e seus pesares – porque é social a maldição que pesa sobre ele.
Por isso, se lhe reprovam sua inautenticidade metafísica e lhe dizem que sua eterna inquietude faz-se acompanhar de um positivismo radical, também é necessário lembrar que tais críticas voltam-se contra quem as formula, o judeu é social porque o anti-semita o fez assim.”

“Entendemos com isso que todas as pessoas que colaboram através de seu trabalho para a grandeza de um país têm pleno direito à cidadania.
O que lhes dá esse direito não é a posse de uma ‘natureza humana’ problemática e abstrata, mas a participação ativa na vida social.
Isso significa, portanto, que os judeus, assim como os árabes ou os negros, têm direito de intervir na empreitada nacional porque também são responsáveis por ela.”


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Vou salientar um aspecto do pensamento de Sartre que acho importante:
"O anti-semitismo é uma escolha livre e total de si mesmo, é uma atitude global que alguém adota não somente para com os judeus, mas para com todos os seres humanos,"
"Nisso, o judeu não é mais do que um pretexto: em outro lugar, o negro, o amarelo servirão. "
Sartre identificou a causa muito bem!
O "anti" odeia todos que tem valor, não importa a cor da pele ou a raça, o "anti" é contra os talentosos, contra os competentes, é contra o empreendedor que constrói e cria riquezas, é contra os que tem sucesso.
E, no caso dos judeus, eles são competentes, em geral tem sucesso na economia e nas ciências, ganham muitos prêmios Nobel, e em geral ficam bem de vida devido a essa competência, o que desperta o ódio dos invejosos.
O "anti" é a característica do incompetente - o que move o "anti" é a inveja.
O "anti", como diz Sartre, é covarde e só atua em grupos, não tem coragem de enfrentar sozinho a quem odeia.
Para poder ter a possibilidade dessa ação grupal os invejosos fundam ideologias que vão dar abrigo ao seu ódio contra os empreendedores de sucesso.
O "anti" tem como causa a inveja que nutre dos talentosos e do sucesso que eles angariam, sucesso que os invejosos jamais terão.

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